16 de setembro de 2012

Agricultura biológica - algumas dicas básicas

Horta experimental em mandala
O princípio fundamental da agricultura biológica  é o respeito pela natureza e a estrita proibição de pesticidas ou adubos químicos de síntese. O solo é também um dos pilares fundamentais: ao contrário da agricultura "tradicional" que empobrece e mata o solo, com a prática da agricultura biológica o solo é enriquecido. Toda a matéria orgânica não consumida é devolvida ao solo (e mesmo parte da consumida: o estrume). Com compostagem ou sem compostagem (adubação verde).

A agricultura biológica baseia-se na biodiversidade: para além de  certas plantas atuarem como "defensoras" ou "ajudantes" de outras (consociações), se ocorrer uma devastação de uma espécie, por doença, praga ou intempérie, há uma grande probabilidade de outras espécies resistirem e não haver grandes perdas.


Abelhão na for da couve
 A agricultura biológica depende de uma miríade de insetos polinizadores, como as abelhas, e de insetos predadores de outros insectos "vegetarianos", cujo exemplo paradigmático é a joaninha, que é uma feroz devoradora de pulgões e outros pequenos insetos que atacam as plantas. Por isso, e porque a joaninha é extremamente sensível e só aparece onde não há aplicação de pesticidas, ela é o símbolo da agricultura biológica. Para os atrair, certas flores (como os cravos-de-tunes) e as plantas aromáticas  são fundamentais.

(texto extraído daqui, onde também falei de agricultura natural e ecológica)
 
Para quem se quer iniciar na agricultura biológica, ficam aqui algumas dicas básicas, bem como algumas fotos da minha primeira horta, que iniciei em Dezembro de 2011. Mas sem dúvida que um pequeno curso teorico-prático é uma grande ajuda para começar bem.

Canteiro coberto com palha
Solo: Para além das características físicas (textura, estrutura,...), ou químicas (pH, nutrientes - azoto, fósforo, potássio,...), as características biológicas do solo são importantíssimas. O solo é composto por materiais inorgânicos, ar, água e matéria orgânica.  A matéria orgânica, essencial, é composta pela parte já decomposta (humus), pela parte em decomposição (chamada parte ativa), pelos restos frescos de seres vivos (folhas, raizes, animais) e pelos próprios seres vivos. A olho nu, pode-se avaliar o seu potencial biológico pela cor - quanto mais escuro, mais matéria orgânica.

NUNCA se deve revolver o solo a mais de 10 cm de profundidade (há aqui algumas discordâncias, mas ficam para outra altura), porque isso destrói a sua biocapacidade. Também não se deve deixar o solo que foi revolvido às intempéries: sempre que possível, deve ser coberto com palha ou outras plantas usadas para a adubação verde, protegendo-o do sol e da erosão.

Fertilização do solo: através do estrume ou composto (resultante da compostagem doméstica ou industrial de resíduos orgânicos). Deve-se ter cuidado com a altura da fertilização, especialmente se for feita com estrume, pois se as plantas estiverem já semeadas ou plantadas não deve ser usado o estrume, e o composto só com precaução, dependendo da espécie e da fase (vegetativa ou reprodutiva). O estrume deve ser sempre usado algum tempo ANTES da plantação, para não causar choque às plantas e para dar tempo que bactérias fecais nocivas morram.

Cravos-de-tunes e cosmos
Adubação verde: certas plantas são muito úteis para enriquecer o solo através da sua trituração e incorporação no mesmo, especialmente leguminosas, que vivem em simbiose (nas raizes) com micro-organismos (Rhizobium) que sintetizam compostos de azoto a partir do azoto do ar. Servem também para cobrir o solo protegendo-o.
- O tremocilho, uma leguminosa, é um bom exemplo para adubação verde, que deve ocorrer após a floração, mas antes da vagem ter sementes desenvolvidas. Corta-se, deixa-se secar cobrindo a terra, e  depois incorpora-se na mesma.
- Os cravos-de-tunes (ou cravos xaropes) são óptimos para bordadura e para afastar certas pragas. Devem ser enterrados na terra após o seu ciclo anual, pois ajudam a manter afastados do solo nemátodos indesejáveis.

Borboleta-zebra nas zínias
Biodiversidade: A biodiversidade na horta é essencial para que haja maior resistência a picos de clima ou a pragas. Mesmo as ervas a que chamamos daninhas ou infestantes têm o seu papel: umas são comestíveis (beldroegas, ançarinha-branca), outras enriquecem a terra (trevo), outras são excelentes "pesticidas" (urtiga), outras aceleram a compostagem (urtiga, consolda) e muitas são medicinais (dente-de-leão, labaça, quelidónia-maior, carrajó, urtiga).
Os melros dão cabo dos caracóis, mas precisam de ser chamados com certas árvores de fruta, como por exemplo ameixoeiras. Há que deixar uma parte dos frutos para os pássaros que ajudam a combater certas pragas; mais vale perder parte dos frutos do que a produção.

consociação alho-francês, alface, cenoura, couve
Consociação: aproveitamento do mesmo terreno, por duas ou mais culturas diferentes, na mesma época. Muitas espécies podem ser associadas entre si, porque se beneficiam mutuamente - consociações favoráveis ou positivas. Mas também há consociações  desfavoráveis ou negativas.
As flores são essenciais nas hortas para atrair insectos úteis; plantas aromáticas repelem pragas e também são essenciais numa horta.  Veja tabelas de consociações aqui, e relacionados com plantas aromáticas e insetos no Cantinho das Aromáticas  e exemplos aqui.
- A hortelã é uma planta muito útil para afastar insectos indesejáveis, mas deve estar plantada em vaso porque é invasora.
- A erva príncipe é um óptimo repelente de insectos indesejáveis (sobretudo para quem tem cães - ver aqui), e dá para fazer um chá delicioso, mas é bastante sensível ao frio.

Calêndula
-  A calêndula, usada em bordaduras, além de atrair insetos úteis, é repelente de certos insetos nefastos para a horta, e tem ainda a vantagem de ter pétalas comestíveis, que embelezam qualquer salada (usadas sobretudo em "alta cozinha").
- Os cravos-de-tunes (ou cravos xaropes) são ótimos para afastar certas pragas e devem ser enterrados na terra após o seu ciclo anual, pois ajudam a manter afastados do solo nemátodos indesejáveis.
- Nos pomares, a cobertura do solo com trevo ou azevém é indicada.


Bordadura com flores e aromáticas
Sebes: Vedações de árvores e arbustos que cercam campos agrícolas. São utilizados na agricultura biológica para fomentar a biodiversidade e protecção da erosão causada pelo vento e prevenção da perda de água. A sua altura depende da dimensão da horta, e não deve ensombrar demais a horta, que precisa de sol.

Bordaduras:  pequenas sebes ou remates de canteiros com plantas aromáticas ou com flores, com a função de repelir insectos indesejáveis e atrair insectos polinizadores (úteis). Por exemplo, de  alecrim, alfazema,  tomilho,  zíniascosmoscravos-de-tunes, etc. (ver exemplo aqui).

Colhido na horta 
Espero que façam bom proveito!

E para finalizar, um vídeo com o exemplo de uma horta biológica no Porto, da Atimati!

Está lá tudo em harmonia: as hortícolas, as aromáticas, as flores, os insetos, os animais domésticos, as pessoas, o trabalho e até a música!

13 comentários:

  1. As tuas dicas são fantásticas e o exemplo que deste da horta de Arca d'Água é inspirador!

    Obrigada pela fantástica partilha Manuela! :-)

    Espero que a tua horta continue a dar produtos saborosos e saudáveis com fartura! ;-)

    Beijinhos,
    Sónia

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    1. Na verdade, a horta era na Fontinha, perto de Sta. Catarina. Na altura eu ainda não tinha horta na Arca d'Água que foi quando conheci a Manuela.

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    2. Olá Atimati, obrigada, já não me lembrava do nome, assim fica aqui registado. Beijinhos

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    1. Litosjose, agradeço em nome da Manuela! :-)

      Muito obrigada pela sua visita e pela força que nos dá o seu comentário! :-D

      Tudo de bom.

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    2. Muito obrigada Sónia, muito obrigada Litosjose, por aqui virem dar força e ânimo, que é disso que bem preciso neste momento!
      São dicas de principiante para principiante, mas espero que possam ajudar alguém a começar.

      Peço desculpa por só agora responder, pois tenho estado um pouco afastada deste cantinho, já que outras tarefas e outro cantinho me tem ocupado mais. MAs espero voltar em breve!

      Bem hajam!

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    3. Manuela, não tens nada que pedir desculpa!
      Eu é que ando ausente, por isso desculpa-me tu.
      Mas em breve volto ao trabalho, OK?
      Beijinhos chefa! :-D

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  3. MANUELA FIQUEI SURPREENDIDO PELAS TUAS DICAS ESTOU AGORA A INICIAR A AGRICULTURA BIOLOGICA TENHO CURSO E GOSTAVA DE SABER QUAIS AS ERVAS AROMATICAS QUE TEM MAIOR VALOR DE MERCADO ESTOU PREVELIGIADO POIS ESTOU NOS AÇORES BOM CLIMA PARA ERVAS AROMATICAS XAU

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    1. Boa tarde!
      São só umas dicas de principiante para principiante. Pratico a agricultura biológica apenas para consumo próprio, mas em termos de valor comercial, não sou nem de longe a pessoa indicada para dar palpite.
      Talvez no Cantinho das Aromáticas (http://www.cantinhodasaromaticas.pt/) possam dar uma ajuda.

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    2. Dica:
      Baixe livros grátis, sobre agricultura. Veja livros que poderão te ajudar no passo a passo no plantio de laranjas, adubação de terra e muito mais...

      http://download-de-livros-gratis.com/nao-ficcao/livros-de-agricultura/

      http://www.download-de-livros-gratis.com/livros-academicos/livros-academicos-de-agronomia/

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  4. Muito Boas suas dicas... vai ajudar bastante a meu pai...
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    1. Muito obrigada pela partilha Valdirene! :-) Sou fã de partilhar conhecimento de forma gratuita e livros sobre estes temas nunca são demais! ;-)
      Espero que o teu pai já tenha usufruido dos resultados das dicas preciosas da Manuela! :-)
      Tudo de bom,
      Sónia

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  5. Parabéns a todos , pois tudo é divino e maravilhoso< Agricultura Sustentável: prova de que nem tudo está perdido. Joaninha, símbolo da Agricultura Biológica. A natureza de mãos dadas com o ser humano. Se cada morador da Terra se conscientizar que depende da Agricultura, lavoura e afins, e contribuir de alguma forma, para a produção de alimentos em grande escala, alimentos sadios, sem venenos, pesticidas, e então teremos um mundo melhor, com mais saúde para as pessoas, alimentos com qualidade . Ação e Sustentabilidade .

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