22 de fevereiro de 2013

Preservar as cultivares tradicionais - o papel da polinização

A troca de sementes e os encontros para troca de sementes são veículos fundamentais para a preservação das variedades tradicionais e locais de alimentos, bem como para nos ajudar a garantir a soberania alimentar.

Stevia (imagem minha)
Ajudam também a manter-nos independentes do oligopólio das empresas gigantes das sementes. Em todo o mundo, a "propaganda" destas empresas tem levado muitos agricultores a apenas comprarem sementes e a deixarem de recolher as próprias (ver reportagem aqui). E assim se vão perdendo e extinguindo uma quantidade de fenomenal de variedades de plantas adaptadas  às condições edafoclimáticas (de solo e de clima) locais, ao longo de séculos e de gerações.

Mas a troca de sementes é só o princípio da preservação das variedades tradicionais de alimentos (e não só). Cultivá-los e deixar uma parte para a recolha de sementes, é outro dos passos. Pelo meio, além de saber como cultivar, para garantir a preservação das variedades há que ter também o cuidado de garantir distâncias mínimas entre os espécimes de variedades distintas (da mesma espécie) dos quais se pretende recolher as sementes, para que não haja "misturas" indesejadas.

Essas distâncias dependem de diversos fatores, sobretudo do tipo de fecundação (autopolinização ou polinização cruzada) e do agente de polinização (insetos ou outros animais, ou vento).

Imagem obtida aqui
«Polinização consiste na transferência de grãos de pólen da antera para o estigma, na mesma flor, ou de uma flor para outra. Os meios de transferência do pólen variam de conformidade com a espécie. O pólen do milho é transportado pelo vento, atingindo outras plantas; porém, uma pequena parte pode cair sobre estigmas da mesma planta. Plantas forrageiras e centeio também são, em grande parte, polinizadas através do vento. Em muitas leguminosas, como a alfafa e o trevo roxo, o transporte se dá por insetos.» (fonte aqui).

No que se refere à reprodução sexual das plantas, as espécies dizem-se autógamas quando predomina a autopolinizaçao e alógamas quando predomina (acima de 95%)  a polinização cruzada (saber mais aqui). Alguns exemplos (daqui e daqui):

Imagem obtida aqui
  • Autógamas:  alface, feijão, amendoim,  arroz, linho, batata, soja, cevada, tomate, trigo, ervilha, ...
  • Autógamas com alogamia frequente (ou intermediárias): algodão, quiabo, berinjela, sorgo, café (arábica), ...
  • Alógamas:  abacate, alfafa, girassol, batata-doce, goiaba, beterraba, cenoura, maçã, crucíferas em geral (couves, couve-flor, brócolos  nabos, colza, rabanetes, ...), manga, café (robusta), maracujá, cacau, pêra, cana-de-açúcar, centeio,  eucalipto; cucurbitáceas em geral (abóbora, melão,  melancia, pepino, ...), mandioca, mamona, milho, seringueira;  espargo, cânhamo, espinafre, lúpulo, tâmara, kiwi, ...

Sobre as distâncias adequadas para a preservação das variedades de algumas espécies hortícolas, vejam a Tabela sobre tipo de polinização e distância de isolamento a outras variedades da mesma espécie, para garantir pureza varietal,  do artigo "Recursos genéticos - variedades regionais e produção de sementes em agricultura biológica", de Jorge Ferreira e António Stretch, no livro "As bases da agricultura biológica", 2ª edição, Edibio, 2012:

Nota: este artigo foi publicado originalmente no blogue Sustentabilidade é Acção, em 10/2/2013.

3 comentários:

  1. Recordo perfeitamente de quando a minha mãe recolhia as sementes das flores do jardim e o meu pai as do quintal. Havia sempre troca entre amigos e familiares.

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    1. Helena, ainda bem que as tradições com valor estão a regressar! :-)

      Tudo de bom e obrigada pela visita!

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  2. Manuela, entrada fenomenal sobre um assunto tão importante! :-)

    Quando organizarem o próximo encontro de troca de sementes, a ver se apareço com alguns dos meus frasquinhos! :-)

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