Sustentabilidade é Acção (blogue original)

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21 de abril de 2020

A coroação (Charles Eisenstein)

Para assinalar o Dia da Terra, que se comemora há 50 anos no dia 22 de abril, trago aqui um excelente texto que nos coloca, entre outras, estas perguntas que nos fazem refletir:

Em que Terra queremos viver? numa Terra com humanos asséticos e sem natureza ou num ecossistema terrestre com a humanidade integrada? Que civilização queremos? do controle e do medo ou da compaixão e da solidariedade? É agora que vamos aprender com esta crise e aproveitar para criar o mundo que queremos?

Trata-se de um excerto do ensaio de Charles Einsenstein intitulado "The Coronation" - um ensaio longo mas é importante ler o texto todo para melhor entender. No original (em inglês) ou na tradução para português (por Fabio Marinho). Também disponível noutros idiomas  e em audio (inglês) - (ver aqui).

«A coroação

Durante anos, a normalidade foi distendida quase até o ponto de ruptura, uma corda cada vez mais esticada, pronta para que uma bicada do cisne negro a partisse em dois. Agora que a corda se rompeu, devemos amarrar as suas pontas uma à outra ou desfazer ainda mais as tranças penduradas para ver o que com elas poderemos tecer?

A Covid-19 mostra-nos que, quando a humanidade está unida por uma causa comum, é possível uma mudança fenomenalmente rápida. Nenhum dos problemas do mundo é tecnicamente difícil de resolver; eles têm a sua origem no desacordo humano. Em circunstâncias de coerência, os poderes criativos da humanidade são ilimitados. Há alguns meses, uma proposta para interromper as viagens aéreas comerciais teria parecido absurda. O mesmo se aplica às mudanças radicais que estão a decorrer nos nossos comportamento social e economia, assim como no que toca ao papel do governo nas nossas vidas. A Covid demonstra o poder da nossa vontade coletiva quando concordamos sobre o que é realmente importante. Numa situação de coerência, o que mais poderemos alcançar? O que queremos nós alcançar e que mundo devemos criar? Essa será sempre a pergunta suscitada por alguém que desperta para o seu poder.

A Covid-19 assemelha-se a uma intervenção de reabilitação que quebra o domínio viciante da normalidade. Interromper um hábito é torná-lo visível; é transformá-lo de uma compulsão numa escolha. Quando a crise terminar, poderemos ter a oportunidade de perguntar se queremos voltar ao normal ou se há algo que vimos durante essa interrupção nas rotinas que queremos trazer para o futuro. Podemos perguntar, após tantos terem perdido os seus empregos, se todos esses serão os empregos que o mundo mais precisa, e se os nossos trabalho e criatividade talvez possam ser mais bem aplicados noutras ocupações. Podemos perguntar, depois de um tempo sem isso, se realmente precisamos de tantas viagens aéreas, férias na Disneyworld ou feiras de carácter comercial. Que partes da economia queremos restaurar e de quais partes podemos conscientemente prescindir? E, focando numa área mais sombria, de tudo o que está correntemente a ser retirado - direitos civis, o direito de reunião, a soberania sobre os nossos corpos, encontros pessoais, abraços, apertos de mão e vida pública – quais desses elementos poderemos precisar de restaurar com recurso a políticas intencionais e vontade pessoal?
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Seja o número final de mortos 50.000, 500.000 ou 5 milhões, vamos analisar outros números para poder estabelecer uma comparação. Não quero com isto dizer que a Covid não é tão nociva e que não devemos fazer nada. Mas pense comigo. No ano passado, de acordo com a FAO, cinco milhões de crianças em todo o mundo terão morrido de fome (entre 162 milhões que são atrofiadas e 51 milhões raquíticas). Este é um nível 200 vezes superior ao número atual das vítimas mortais da Covid-19, no entanto nenhum governo declarou estado de emergência ou pediu que alterássemos o nosso modo de vida para salvá-las. Também não vemos um estado comparável de alarme e de ação em torno do suicídio – a mera ponta de um iceberg de desespero e depressão – que mata mais de um milhão de pessoas por ano em todo o mundo, 50.000 só nos EUA. Ou a respeito dos casos de overdose, que matam 70.000 nos EUA, ou a epidemia de doenças autoimunes que afeta de 23,5 milhões (número do NIH) a 50 milhões (AARDA), ou de obesidade, que atinge mais de 100 milhões. Por que, aliás, não estamos tão empenhados em evitar o armagedão nuclear ou o colapso ecológico, mas, pelo contrário, buscamos opções que ampliam ainda mais esses mesmos perigos?

Claro, não defendo a ideia de que, uma vez que não mudámos os nossos hábitos para impedir que as crianças passem fome, então também não devemos alterá-los para a Covid. É justamente o contrário: se podemos mudar tão radicalmente face à pandemia atual, podemos fazê-lo também para essas outras situações. Perguntemo-nos, então, por que somos capazes de unificar a nossa vontade coletiva para conter este vírus, mas não para enfrentar outras ameaças graves à humanidade. Porque, até agora, a sociedade tem estado tão paralisada na sua trajetória até aqui?

A resposta é reveladora. Simplesmente, porque diante da fome no mundo, do vício, da autoimunidade, do suicídio ou do colapso ecológico, nós, como sociedade, não sabemos o que fazer. As nossas respostas a crises, que trazem consigo sempre algum tipo de controlo, não são muito eficazes para lidar com essas condições. Agora aparece uma epidemia contagiosa e, finalmente, podemos entrar em ação. É uma crise para a qual o controlo funciona: quarentenas, bloqueios, isolamento, lavagem das mãos, controlo de movimento, controlo de informações, controlo dos nossos corpos. Isso faz da Covid um receptáculo conveniente para os nossos medos mais rudimentares, um lugar para onde canalizar o nosso crescente sentimento de desamparo diante das mudanças que dominam o mundo. A atual pandemia é uma ameaça que sabemos como enfrentar. Ao contrário de tantos outros medos, a Covid-19 oferece um plano.
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Há uma alternativa ao paraíso do controlo perfeito que a nossa civilização tenta alcançar há já tanto tempo. Ela retrocede tão rápido quanto progride, como uma miragem no horizonte. Sim, podemos prosseguir como até aqui no caminho em direção a mais isolamento, dominação e separação. Podemos normalizar altos níveis de separação e controlo, acreditar que são necessários para nos manter seguros e aceitar um mundo em que temos medo de estar próximos um do outro. Ou podemos tirar proveito desta pausa, desta quebra no normal, para entrar no caminho do encontro, do holismo, do restabelecimento das conexões perdidas, da reparação da comunidade e do retorno à rede da vida.

Devemos dobrar a proteção do eu separado ou aceitamos o convite para um mundo em que todos nós nos sintamos parte de um mesmo todo? Não é apenas na medicina que encontramos esta pergunta: ela visita-nos política e economicamente, e também nas nossas vidas pessoais. Tomemos, por exemplo, a questão da acumulação, que incorpora a ideia: "Não haverá o suficiente para todos, por isso vou garantir que haja o suficiente para mim". Uma resposta alternativa a esse dilema pode ser: "Alguns não têm o suficiente, então vou compartilhar o que tenho com eles". Estamos aqui para assumir o papel de sobreviventes ou de ajudantes? Para que serve a vida?
Numa escala maior, as pessoas estão a fazer perguntas que até agora estavam escondidas nas margens do ativismo. O que devemos fazer com os sem-abrigo? O que devemos fazer com as pessoas nas prisões? Nas favelas do Terceiro Mundo? O que devemos fazer com os desempregados? E todas as empregadas de hotel, os motoristas de Uber, os canalizadores e porteiros e motoristas de transportes públicos e caixas que não podem trabalhar a partir de casa? Agora, finalmente, florescem ideias como o perdão da dívida estudantil e o rendimento básico incondicional. A reflexão "Como podemos proteger os susceptíveis à Covid?" convida-nos à seguinte: "Como podemos cuidar das pessoas vulneráveis em geral?".

Este é o impulso que está a ser despertado em nós, independentemente da superficialidade das nossas opiniões sobre as gravidade e origem da Covid ou sobre a melhor política para lidar com ela. Esse impulso diz-nos: levemos a sério a ideia de cuidarmos uns dos outros. Lembremo-nos de como todos nós somos preciosos, de como a vida é preciosa. Façamos um inventário da nossa civilização, despindo-a até aos seus alicerces, e vejamos se podemos construir uma mais bonita.

À medida que a Covid desperta a nossa compaixão, cada vez mais pessoas percebem que não querem voltar a um normal onde ela dolorosamente não exista. Agora temos a oportunidade de criar um novo normal, mais solidário.
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Durante muito tempo, nós, como coletivo, ficámos impotentes perante uma sociedade cada vez mais doentia. Seja a saúde ou a infraestrutura em declínio, a depressão, o suicídio, os vícios, a degradação ecológica ou a concentração de riqueza, é fácil perceber os sintomas de mal-estar civilizacional no mundo desenvolvido, mas nós permanecemos presos aos sistemas e padrões que os criam. Hoje, a Covid presenteia-nos com a possibilidade de um reset.

Um milhão de caminhos bifurcados está diante de nós. O rendimento básico incondicional poderia significar o fim da insegurança económica e o florescimento da criatividade, à medida que milhões são libertados do trabalho que a Covid nos mostrou ser menos necessário do que pensávamos. Ou também poderia significar, com a dizimação de pequenas empresas, a dependência face ao Estado a troco de uma bolsa que vem com condições rigorosas. A crise poderia conduzir ao totalitarismo ou à solidariedade; à lei marcial médica ou ao renascimento holístico; a maior medo do mundo microbiano ou a uma maior resiliência na participação nele; a normas permanentes de distanciamento social ou a um desejo renovado de se unir.

O que pode guiar-nos, como indivíduos e como sociedade, enquanto caminhamos no jardim dos caminhos bifurcados? Em cada entroncamento, podemos estar cientes do que seguimos: medo ou amor, autopreservação ou generosidade. Devemos viver com medo e construir uma sociedade baseada nele? Devemos viver para preservar os nossos seres separados? Devemos usar a crise como uma arma contra os nossos inimigos políticos? Estas não são perguntas do tipo tudo ou nada, medo ou amor. Elas têm a ver, sim, com uma próxima etapa em direção ao amor que está diante de nós. Parece ousado, mas não imprudente. Trata-se de um movimento que valoriza a vida, enquanto aceita a morte. E confia que, a cada passo, o seguinte se tornará visível.

Por favor, não pense que a escolha do amor sobre o medo pode ser realizada apenas através de um ato de vontade, e que esse medo também pode ser vencido como um vírus. O vírus que enfrentamos aqui é o medo, seja o medo da Covid-19 ou o medo da resposta totalitária, e esse vírus também tem o seu terreno. O medo, juntamente com o vício, a depressão e uma série de males físicos, frutifica num terreno de separação e trauma: trauma herdado, trauma de infância, violência, guerra, abuso, negligência, vergonha, punição, pobreza e também o trauma normalizado e silencioso que afeta quase todos os que vivem numa economia monetizada, que passam por uma educação moderna ou que vivem sem comunidade ou conexão com o local. Esse terreno pode ser alterado pela cura do trauma ao nível pessoal, pela mudança sistémica em direção a uma sociedade mais solidária e pela transformação da narrativa básica da separação: o eu separado num mundo de Outro, eu separado de ti, a humanidade separada da natureza. Estar sozinho é um medo primordial, e a sociedade moderna foi-nos deixando mais e mais sozinhos. Mas a hora do Encontro chegou. Cada ato de compaixão, bondade, coragem ou generosidade cura-nos da história da separação, porque garante ao ator e à testemunha que todos estão juntos.

Concluirei invocando mais uma dimensão da relação entre humanos e vírus. Os vírus são parte integrante da evolução, não apenas dos humanos, mas de todos os seres vivos eucariotas. Os vírus podem transferir DNA de organismo para organismo, por vezes inserindo-o na linha germinal (onde se torna herança genética). Conhecido como transferência horizontal de genes, este é um mecanismo primário de evolução, permitindo que a vida evolua dessa união muito mais rapidamente do que seria possível através de mutações aleatórias. Como Lynn Margulis referiu, nós somos os nossos vírus.

E com isto gostaria de me aventurar em território especulativo. Talvez as grandes doenças da civilização tenham acelerado a nossa evolução biológica e cultural, fornecendo informações genéticas importantes e oferecendo iniciação individual e coletiva. Será que a pandemia atual não poderia ser exatamente isso? Novos códigos de RNA estão a espalhar-se de humano para humano, imbuindo-nos com novas informações genéticas; ao mesmo tempo, estamos a receber outros “códigos” esotéricos que se escondem por trás dos biológicos, perturbando os nossos sistemas e narrativas da mesma maneira que uma doença perturba a fisiologia corporal. O fenómeno segue o modelo da iniciação: separação da normalidade, seguido por um dilema, colapso ou prova, seguido (se for para ser completo) por reintegração e celebração.

Mas aqui surge a pergunta: iniciação em quê? Quais são a natureza e os objetivos específicos dessa iniciação? O nome popular da pandemia oferece uma pista: coronavírus. Corona significa coroa. "Nova pandemia de coronavírus" significa "uma nova coroação para todos".

Podemos já sentir o poder daqueles em que nos podemos tornar. Um verdadeiro soberano não teme nem vida nem morte. Um verdadeiro soberano não domina ou conquista (o que é próprio de um arquétipo das sombras, o Tirano). O verdadeiro soberano serve as pessoas, serve a vida e respeita a soberania de todos os povos. A coroação marca a emersão do inconsciente na consciência, a cristalização do caos na ordem, a transcendência da compulsão para a escolha. Tornamo-nos os governantes daquilo que nos havia governado. A Nova Ordem Mundial que os teóricos da conspiração temem é uma sombra da possibilidade gloriosa disponível para seres soberanos. Deixando de ser vassalos do medo, podemos trazer ordem ao reino e construir uma sociedade intencional com base no amor que brilha já através das fissuras do mundo da separação.»

Fonte: The Coronation, Charles Eisenstein, março 2020; tradução de Fabio Marinho, abril 2020.

Publicado em Sustentabilidade é Acção 21/4/2020

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