O vídeo abaixo mostra como no Brasil os pequenos agricultores e os consumidores que se preocupam com uma alimentação e agricultura sem venenos ("agrotóxicos") estão a dar a volta ao grande poder das multinacionais agroquímicas ou grandes cadeias de distribuição. Associações de agricultores ecológicos, feirinhas onde o produto chega diretamente do produtor ao consumidor, encurtando os circuitos dos alimentos, reduzindo ou eliminando os intermediários que levam a grande fatia do lucro, se não todo.
Nas AMAP, Associações de Manutenção de Agricultura de Proximidade, aliadas à agricultura biológica certificada, em que os associados consumidores pagam adiantado para que os agricultores possam pagar as despesas de produção, e recebem em cabazes com os produtos da época. Isto permite um pagamento justo ao produtor, preços mais baixos, e alimentação mais saudável.
Em Portugal, felizmente já começam a aparecer AMAP, agricultura de proximidade (não necessariamente de produtos biológicos certificados), que tratam de “uma parceria direta, baseada na relação humana entre o grupo de consumidores e um ou mais produtores, onde os riscos, responsabilidades e recompensas da produção agrícola são partilhadas, através do estabelecimento de uma ligação de longa duração.” (daqui). Um excelente caminho para a agricultura em pequena escala, e sobretudo, para a agricultura biológica. O poder está na mão de cada um, quando escolhe o que e onde compra, e sobretudo quando se informa de onde vem os seus alimentos (e não só, claro).
Hortaliças, legumes ou verduras são alimentos essenciais na dieta diária de quem faz uma alimentação equilibrada e saudável. Bem mais saudável se for produzido de forma biológica, sem pesticidas e sem adubos químicos de síntese (para nós e para o ambiente). E se tivermos a possibilidade e o gosto de sermos nós próprios a produzir, ainda melhor.
Anteriormente apresentei uma dicas básicas, de principiante para principiante de agricultura biológica. Para quem possa estar interessado em aprender mais alguma coisa sobre o cultivo de hortícolas em modo biológico, deixo aqui umas ligações um guia básico e para manuais que estão presentemente online, e que se encontram também na página "Agricultura Sustentável" (do blogue irmão Sustentabilidade é Acção):
Abaixo, uma tabela retirada deste último (Manual de Horta: Cultivo de Hortaliças, da Secretaria Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, Brasil) com o valor nutricional de hortaliças (por 100 gr). Algumas são bem comuns em Portugal, outras nem tanto (clique na imagem para ampliar). Não admira, pois, que grande parte destes alimentos sejam fundamentais na prevenção e mesmo combate de doenças. E fundamental é também a diversidade, pois cada um desses alimentos tem a sua própria riqueza.
"Os benefícios que as verduras, legumes e frutas podem propiciar ao organismo estão cada vez mais comprovados por pesquisas científicas. Por esta razão, é muito importante que seu consumo seja motivado desde a primeira infância para que bons hábitos alimentares se instalem e perpetuem através das gerações."
Fonte: "A IMPORTÂNCIA DAS HORTALIÇAS NA ALIMENTAÇÃO HUMANA", por Vera Lúcia T. Nakayama (nutricionista), em"Manual de Horta", Prefeitura de são Paulo
Larva de joaninha-dos-sete-pontos (coccinella septempunctata), uma das cerca de 5000 espécies de joaninhas, e a mais comum na Europa.
Depois da fase larvar, a joaninha passa pelo estádio imóvel de pupa, normalmente agarrada a uma folha ou caule e eclode com a forma adulta, mas amarela. Depois vai alaranjando e ganhando as pintas até ficar com o aspecto final da joaninha dos sete pontos,
As joaninhas são predadoras vorazes de pequenos insetos, como pulgões, moscas da fruta, piolhos das folhas e ácaros, tanto em larva como adulta. Uma joaninha pode comer mais de 200 pulgões por dia, embora também se alimentem de néctar e folhas - são omnívoras.
Por esse motivo, são preciosas como auxiliares em agricultura biológica, mas são muito sensíveis aos pesticidas usados na agricultura convencional, por isso aí não aparecem.
Conheço as joaninhas adultas desde criança, mas foi preciso começar a minha horta (biológica) em 2011 para conhecer as larvas de joaninha. Quando as vi, a minha reacção foi "mas que bicho é este, rastejante, cinzento e com manchas cor de salmão?" e só fiquei a saber depois de pesquisar.
No Dia da Mulher, ficamos com a entrevista a Vandana Shiva, que passou no programa "O Tempo e o Modo" na RTP2 no dia 28 de Junho de 2012. Um depoimento vital e indispensável duma Senhora incrível, com uma cultura vasta, uma inteligência brilhante e uma simplicidade desarmante!
"Um povo ignorante é um instrumento cego da sua própria destruição." Simón Bolivar
Pode um lote urbano de 800 m2 (com uma casa e garagem) gerar mais de 3000 quilogramas de alimentos biológicos num ano? Pode, pelo menos na Califórnia!
Veja o vídeo abaixo - a curta-metragem premiada de 2009 "Homegrown Revolution", e saiba como a família Dervaes de Pasadena transformou o tradicional logradouro na "atividade mais perigosa do mundo": cultivar alimentos para ficar livre!
Conheça melhor a família e a história no site http://urbanhomestead.org/. De acordo com informações deste site, o recorde foi em 2010, com a produção de 3175 kg (7000 lb) de alimentos numa área cultivada de 400 m2 (1/10 acre).
Vídeo com legendas em português nos primeiros 5 minutos aqui
Reportagem sobre o Curso Prático de Horticultura "Aprender a cultivar em pequenos espaços", que ocorreu entre Fevereiro e Julho de 2012, com os formadores Sónia Brásio, Pedro Ferreira e Annelieke van der Sluijs .Na Horta do Botânico, um projecto desenvolvido pela iniciativa Transição Coimbra, no Jardim Botânico de Coimbra.
O princípio fundamental da agricultura biológica é o respeito pela natureza e a estrita proibição de pesticidas ou adubos químicos de síntese. O solo é também um dos pilares fundamentais: ao contrário da agricultura "tradicional" que empobrece e mata o solo, com a prática da agricultura biológica o solo é enriquecido. Toda a matéria orgânica não consumida é devolvida ao solo (e mesmo parte da consumida: o estrume). Com compostagem ou sem compostagem (adubação verde). A agricultura biológica baseia-se na biodiversidade: para além de certas plantas atuarem como "defensoras" ou "ajudantes" de outras (consociações), se ocorrer uma devastação de uma espécie, por doença, praga ou intempérie, há uma grande probabilidade de outras espécies resistirem e não haver grandes perdas.
Abelhão na for da couve
A agricultura biológica depende de uma miríade de insetos polinizadores, como as abelhas, e de insetos predadores de outros insectos "vegetarianos", cujo exemplo paradigmático é a joaninha, que é uma feroz devoradora de pulgões e outros pequenos insetos que atacam as plantas. Por isso, e porque a joaninha é extremamente sensível e só aparece onde não há aplicação de pesticidas, ela é o símbolo da agricultura biológica. Para os atrair, certas flores (como os cravos-de-tunes) e as plantas aromáticas são fundamentais.
(texto extraído daqui, onde também falei de agricultura natural e ecológica)
Para quem se quer iniciar na agricultura biológica, ficam aqui algumas dicas básicas, bem como algumas fotos da minha primeira horta, que iniciei em Dezembro de 2011. Mas sem dúvida que um pequeno curso teorico-prático é uma grande ajuda para começar bem.
Canteiro coberto com palha
Solo: Para além das características físicas (textura, estrutura,...), ou químicas (pH, nutrientes - azoto, fósforo, potássio,...), as características biológicas do solo são importantíssimas. O solo é composto por materiais inorgânicos, ar, água e matéria orgânica. A matéria orgânica, essencial, é composta pela parte já decomposta (humus), pela parte em decomposição (chamada parte ativa), pelos restos frescos de seres vivos (folhas, raizes, animais) e pelos próprios seres vivos. A olho nu, pode-se avaliar o seu potencial biológico pela cor - quanto mais escuro, mais matéria orgânica.
NUNCA se deve revolver o solo a mais de 10 cm de profundidade (há aqui algumas discordâncias, mas ficam para outra altura), porque isso destrói a sua biocapacidade. Também não se deve deixar o solo que foi revolvido às intempéries: sempre que possível, deve ser coberto com palha ou outras plantas usadas para a adubação verde, protegendo-o do sol e da erosão.
Fertilização do solo: através do estrume ou composto (resultante da compostagem doméstica ou industrial de resíduos orgânicos). Deve-se ter cuidado com a altura da fertilização, especialmente se for feita com estrume, pois se as plantas estiverem já semeadas ou plantadas não deve ser usado o estrume, e o composto só com precaução, dependendo da espécie e da fase (vegetativa ou reprodutiva). O estrume deve ser sempre usado algum tempo ANTES da plantação, para não causar choque às plantas e para dar tempo que bactérias fecais nocivas morram.
Cravos-de-tunes e cosmos
Adubação verde: certas plantas são muito úteis para enriquecer o solo através da sua trituração e incorporação no mesmo, especialmente leguminosas, que vivem em simbiose (nas raizes) com micro-organismos (Rhizobium) que sintetizam compostos de azoto a partir do azoto do ar. Servem também para cobrir o solo protegendo-o.
- O tremocilho, uma leguminosa, é um bom exemplo para adubação verde, que deve ocorrer após a floração, mas antes da vagem ter sementes desenvolvidas. Corta-se, deixa-se secar cobrindo a terra, e depois incorpora-se na mesma.
- Os cravos-de-tunes (ou cravos xaropes) são óptimos para bordadura e para afastar certas pragas. Devem ser enterrados na terra após o seu ciclo anual, pois ajudam a manter afastados do solo nemátodos indesejáveis.
Borboleta-zebra nas zínias
Biodiversidade: A biodiversidade na horta é essencial para que haja maior resistência a picos de clima ou a pragas. Mesmo as ervas a que chamamos daninhas ou infestantes têm o seu papel: umas são comestíveis (beldroegas, ançarinha-branca), outras enriquecem a terra (trevo), outras são excelentes "pesticidas" (urtiga), outras aceleram a compostagem (urtiga, consolda) e muitas são medicinais (dente-de-leão, labaça, quelidónia-maior, carrajó, urtiga).
Os melros dão cabo dos caracóis, mas precisam de ser chamados com certas árvores de fruta, como por exemplo ameixoeiras. Há que deixar uma parte dos frutos para os pássaros que ajudam a combater certas pragas; mais vale perder parte dos frutos do que a produção.
consociação alho-francês, alface, cenoura, couve
Consociação: aproveitamento do mesmo terreno, por duas ou mais culturas diferentes, na mesma época. Muitas espécies podem ser associadas entre si, porque se beneficiam mutuamente - consociações favoráveis ou positivas. Mas também há consociações desfavoráveis ou negativas.
As flores são essenciais nas hortas para atrair insectos úteis; plantas aromáticas repelem pragas e também são essenciais numa horta. Veja tabelas de consociações aqui, e relacionados com plantas aromáticas e insetos no Cantinho das Aromáticas e exemplos aqui.
- A hortelã é uma planta muito útil para afastar insectos indesejáveis, mas deve estar plantada em vaso porque é invasora.
- A erva príncipe é um óptimo repelente de insectos indesejáveis (sobretudo para quem tem cães - ver aqui), e dá para fazer um chá delicioso, mas é bastante sensível ao frio.
Calêndula
- A calêndula, usada em bordaduras, além de atrair insetos úteis, é repelente de certos insetos nefastos para a horta, e tem ainda a vantagem de ter pétalas comestíveis, que embelezam qualquer salada (usadas sobretudo em "alta cozinha").
- Os cravos-de-tunes (ou cravos xaropes) são ótimos para afastar certas pragas e devem ser enterrados na terra após o seu ciclo anual, pois ajudam a manter afastados do solo nemátodos indesejáveis.
- Nos pomares, a cobertura do solo com trevo ou azevém é indicada.
Bordadura com flores e aromáticas
Sebes: Vedações de árvores e arbustos que cercam campos agrícolas. São utilizados na agricultura biológica para fomentar a biodiversidade e protecção da erosão causada pelo vento e prevenção da perda de água. A sua altura depende da dimensão da horta, e não deve ensombrar demais a horta, que precisa de sol.
Bordaduras: pequenas sebes ou remates de canteiros com plantas aromáticas ou com flores, com a função de repelir insectos indesejáveis e atrair insectos polinizadores (úteis). Por exemplo, de alecrim, alfazema, tomilho, zínias, cosmos, cravos-de-tunes, etc. (ver exemplo aqui).
Colhido na horta
Espero que façam bom proveito!
E para finalizar, um vídeo com o exemplo de uma horta biológica no Porto, da Atimati!
Está lá tudo em harmonia: as hortícolas, as aromáticas, as flores, os insetos, os animais domésticos, as pessoas, o trabalho e até a música!
A agricultura biológica e a agricultura natural ou ecológica atuam de forma preventiva: um solo rico em matéria orgânica e de boa qualidade, o uso de consociações apropriadas e uma grande diversidade de espécies, previnem o aparecimento de doenças ou o ataque maciço por pragas. Mas nem sempre é possível evitá-las. Nesses casos, existem defensivos naturais que ajudam a minorar ou eliminar os problemas.
Chorume de urtigas, infusão de consolda (ou confrei), soluções de sabão ou extrato de alho, são alguns dos exemplos mais utilizados. No vídeo abaixo, uma parte dum dos programas Biosfera de 2009, explica-se como se faz e se usam alguns dos pesticidas ecológicos (eu não lhes chamo biopesticidas, depois do que vi na definição na wikipédia, onde incluem extratos de plantas transgénicas). Alguns destes pesticidas, como o chorume de urtigas ou a infusão de consolda, podem ser utilizados também como fertilizantes naturais, normalmente mais diluídos.